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quinta-feira, 17 de março de 2011
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Os serviços dos ecossistemas
Por Vera Lucia Imperatriz Fonseca*
*Vera Lúcia Imperatriz Fonseca é bióloga, professora da Universidade de São Paulo (USP) e professora visitante sênior da CAPES na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), no Rio Grande do Norte (RN).
Retirado do site: Pré-Univesp
A humanidade depende da natureza para seu bem-estar e sobrevivência. Há aproximadamente 10 mil anos, o homem começou a domesticar a natureza, a plantar e a criar animais. Nesta época, começamos a manejar os serviços da natureza diretamente, para obter maior produtividade — e os humanos compreenderam a importância do que agora chamamos de serviços dos ecossistemas. Os gregos antigos sabiam da importância da conservação dos solos, após os desmatamentos. O declínio de muitas civilizações veio com as degradações ambientais.
A maioria desses serviços permanece despercebida por muitos: a dispersão de sementes pelas aves, o papel dos serviços do solo, a polinização, a conservação dos corpos d' água. As cidades também dependem dos serviços dos ecossistemas: a água necessária para seus habitantes, por exemplo, vem de fora de seus limites. Quando a cidade de Nova York decidiu proteger uma área próxima, em vez de construir uma enorme estação de filtragem e de tratamento de água, optou pela preservação dos serviços dos ecossistemas, e houve uma enorme economia de recursos. Em várias outras situações semelhantes, em outros países, como a China, por exemplo, a opção pela valorização e implementação dos serviços dos ecossistemas tem sido feita.
Foi nos anos 1970 que os ecólogos começaram a focalizar os sistemas de suporte e serviços provenientes dos ecossistemas. Foram usados também outros termos, como "funções ambientais", e mais recentemente foi editado um livro popular nos Estados Unidos intitulado Os serviços da natureza. Já a Economia Ecológica desenvolveu o conceito de capital natural para tratar dos recursos não renováveis, os renováveis e os serviços dos ecossistemas para os cientistas sociais.
A grande mudança em relação à aceitação do conceito surgiu quando, em 1997, o pesquisador Robert Costanza e colaboradores publicaram um famoso estudo ("O valor dos serviços ecossistêmicos do mundo e o capital natural") na revista Nature, uma das mais importantes publicações científicas do mundo, dando um valor para cada um dos 17 serviços ecossistêmicos. Este é o segundo trabalho mais citado da revista Nature na área de meio ambiente nos últimos 10 anos. Uma vez que seria possível quantificar quanto vale a natureza se ela precisasse ser reconstruída, o capital natural passa a ser um ponto central nas discussões relacionadas ao meio ambiente e sua utilização.
Há três categorias de serviços que nos afetam diretamente. A primeira é a dos serviços de provisionamento: alimento, combustível, fibras, água, recursos genéticos. Já os serviços de regulagem são os que obtemos da regulação natural dos serviços de ecossistemas, incluindo aqui a manutenção da qualidade do ar, a regulação do clima, o controle da erosão, das doenças, da produção de alimentos através da polinização, da purificação da água. Já os serviços culturais incluem o valor estético da natureza, o enriquecimento espiritual, educativo, recreativo. Podemos considerar a lista que vem a seguir como parcial para os serviços dos ecossistemas: purificação do ar e da água; mitigação de secas e inundações; geração e preservação dos solos e renovação de sua fertilidade; decomposição de resíduos; polinização de culturas agrícolas e de áreas naturais; ciclagem e movimento dos nutrientes; controle da grande maioria das pestes agrícolas.
Há algumas definições para os serviços dos ecossistemas, tais como: " as condições e processos através dos quais os ecossistemas naturais e as espécies que os compõem sustentam a vida humana" (Daily, 1997); " os benefícios das populações humanas derivam, direta ou indiretamente, das funções dos ecossistemas" (Costanza et al, 1997), e " os benefícios que os homens obtêm dos ecossistemas" (Avaliação do Milênio, 2005). Outro termo utilizado é o de serviços ambientais. No Brasil já há leis que apoiam o pagamento pelos serviços ambientais de manutenção de mananciais, por exemplo, no Estado de São Paulo.
Em 1920, éramos dois bilhões de habitantes na Terra. Em 2010, ultrapassamos 6,5 bilhões de habitantes. O ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, encomendou um grande estudo para avaliar qual é a importância do meio ambiente para o bem-estar do homem. A base deste trabalho foi o serviço ecossistêmico. A análise, iniciada em 2001 e e concluída em 2005, foi feita por 1300 cientistas, além de tomadores de decisão, coordenadores etc., e ficou conhecida como a Avaliação do Milênio (ver http://www.maweb.org/en/index.aspx e box). Muitos documentos foram então produzidos, inclusive disponíveis em português ("Vivendo além de nossos meios - o Capital Natural e o bem-estar humano").
Perdemos 35% dos manguezais, 40% das florestas e 50% das áreas alagadas. A pesca foi super explorada, de modo que os estoques de peixes são 80% menores. Além disso, 60% dos serviços dos ecossistemas foram degradados nos últimos 50 anos. A perda de diversidade é de 100 a 1000 vezes maior do que em outros séculos. A área cultivada do planeta cobriu 25% da superfície da Terra. O uso da terra é disputado: são muito focalizados os limites entre agricultura e conservação, de tal modo que os novos mapas de preservação da Terra são baseados nos serviços ecossistêmicos.
Biodiversidade e serviços ecossistêmicos muitas vezes são mencionados juntos. Quanto maior a biodiversidade, maior a possibilidade de utilização dos serviços, e maior a capacidade do ecossistema de se tornar mais resistente a mudanças. É necessário que haja um diálogo entre sociedade e tomadores de decisão, baseado em informações científicas relevantes, para que possamos planejar juntos o nosso futuro comum. Também chegou o momento em que os cientistas devem se reeducar com relação a informar tecnicamente as políticas públicas e as necessidades da sociedade.
*Vera Lúcia Imperatriz Fonseca é bióloga, professora da Universidade de São Paulo (USP) e professora visitante sênior da CAPES na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), no Rio Grande do Norte (RN).
Retirado do site: Pré-Univesp
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